Mau gosto. Ou talvez não!

ANÁLISE LITERÁRIA - Infantil
O título "Amor... que nojo!" poderá despertar alguma repulsa. Ou, tão-somente, curiosidade. Será título que se apresente num livro de literatura infantil? Porque não? É ousado, divertido, apelativo e vai ao encontro de uma expressão típica dos mais pequenos. Pensemos naquelas crianças que face à ternura desmedida da avó, do tio, da madrinha... que as enchem de beijos repenicados, reagem, com peculiar naturalidade, limpando o rosto... isto quando não verbalizam: "Blhac!"
Avancemos agora para um miolo de livro igualmente delicioso, embora com muito "Blhac" à mistura. A história versa a insatisfação de Samuel face a um universo meloso onde as manifestações de amor são uma constante. Farto de tanto amor, ele decide montar a sua bicicleta (metáfora para a imaginação) e fugir de tanto amor. Mas, o amor não escolhe apenas humanos... também animais e até extraterrestres... Não há como escapar ao amor! Nem no interior da selva ou nas profundezas do oceano, ele consegue escapar...
Porém, numa ilha deserta, Samuel vai livrar-se do amor... Ou talvez não! Algo a descobrir pelos pequenos e graúdos que mergulharem na leitura desta divertida e ternurenta história sobre a universal necessidade de Amor.
Pontos positivos também para a ilustração, onde fotografia e desenho se fundem com maestria.
"Amor... que nojo!", da autoria de Michael Catchpool e com ilustrações de Victoria Ball, tem a chancela das Edições Nova Gaia. Custa 11,90 euros.


Campo de flores

PALAVRAS COM ALMA
Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus - ou foi talvez o Diabo - deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.


Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Semear “Sonhos na Palma da Mão” para colher liberdade

ANÁLISE LITERÁRIA - Infantil
“No sonho, a liberdade..." - é a porta de entrada deste livro. Uma porta sem fechadura, através da qual todos podem passar. Pequenos, graúdos. Na capacidade de sonhar mora a grandeza da vida. No sonho não há amarras, castrações, limites. No sonho, apenas a liberdade. É este o sentido que dá cor a esta obra de Luísa Dacosta.
"Estes 'Sonhos na Palma da Mão' pagam, de certa maneira, o encanto que me deram 'A Rapariga dos Fósforos', 'A Sereiazinha', 'O Patinho Feio', 'O Rouxinol' [Andersen]" – justifica a autora. E, porque encanto com encanto se paga, eis um livro doce, terno e impregnado de magia.
O ponto de partida para o sonho é aqui um pequeno pássaro, talvez um rouxinol... que "no seu ninho passou a chocar os sonhos da menina". É a imaginação dessa menina que lhe dá alma e juntos viajam; percorrem histórias possíveis (ou impossíveis); histórias vestidas por personagens sem nome.
A menina que a autora tomou como protagonista é, tão-somente, uma menina, uma criança como tantas outras que na palma da mão têm poisados sonhos, muitos sonhos.
Finaliza a autora: "Como o abrir e o fechar de um leque, assim se abriam e fechavam os sonhos da menina com aquele passarinho do quarto da avó - até que ela se cansou e abandonou ao mistério da sua grácil fragilidade..."
"Sonhos na Palma da Mão", editado pela ASA, integra a colecção "Obras Completas de Luísa Dacosta para a Infância". As ilustrações são de Cristina Valadas. Está à venda por 8 euros. É um livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 4º ano de escolaridade destinado a leitura orientada na sala de aula.

A AUTORA
Ficcionista, cronista e poetisa com mais de duas dezenas de títulos publicados, Luísa Dacosta nasceu em 1927, em Vila Real, tendo-se formado na Faculdade de Letras de Lisboa, em Histórico-Filosóficas. Já distinguida pela Secção Portuguesa do IBBY (International Board on Books for Young People), que a escolheu como candidata portuguesa ao Prémio Han Christian Andersen - uma espécie de Nobel da literatura infantil.

Ubi Veritas

ALGUMA INSPIRAÇÃO
Na linguagem cifrada do vento
descubro uma metáfora amarelo sol
um estranho e onírico sopro
num feixe de arco-íris eterno

Espreitam olhos de maldade
escondem brinquedos de fingida simpatia,
mas as recordações filtram o passado
e servem o equilíbrio instável do presente

Linda boneca de tez rosada
deita-se no perfume do tempo
que constrói transparentes certezas
num mar urgente de cetim

Quero olhar a história
matar a vergonha consentida
e ver-te brincar na memória
retocada por desejos fortuitos

Ao olhar-te adormeço para a eternidade
e sorrio


Salomé Castro in Ubi Veritas

Meu tormento

PALAVRAS COM ALMA
Mais do que tu pensas
Enlouquecendo de amor,
Uno a tua imagem às folhas densas.

Tudo passa neste mundo,
Oiço o som da saudade
Retorcendo lá pelo fundo.
Moro longe da felicidade,
Enamoro-me das tuas belezas,
Na dor eu vivo
Tudo para mim são incertezas,
O amor de um ser cativo.

Orlando Castro in Algemas da Minha Traição (1975)

CARPE DIEM

IMAGENS COM ALMA

Estou além

PALAVRAS COM ALMA

Não consigo dominarEste estado de ansiedadeA pressa de chegarP'ra não chegar tarde
Não sei de que é que eu fujoSerá desta solidãoMas porque é que eu recusoQuem quer dar-me a mão
Vou continuar a procurarA quem eu me quero darPorque até aqui eu só:Quero quem, quem eu nunca viPorque eu só quero quemQuem não conheciPorque eu só quero quemQuem eu nunca viPorque eu só quero quemQuem não conheciPorque eu só quero quemQuem eu nunca vi
Esta insatisfaçãoNão consigo compreenderSempre esta sensaçãoQue estou a perder
Tenho pressa de sairQuero sentir ao chegarVontade de partirP'ra outro lugar
Vou continuar a procurarA minha formaO meu lugarPorque até aqui eu só:Estou bem aonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde não estouEstou bem aonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde não estou

António Variações (1944-1984)

Acordar, Viver

PALAVRAS COM ALMA
Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Edição fac-similada de Cadernos de Poesia

ANÁLISE LITERÁRIA - Poesia


Dirigida, na primeira série, de 1940-42, por Tomaz Kim, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti, a que se juntariam Jorge de Sena e José-Augusto França nas segunda e terceira séries, de 1951 e 1952-53, a revista "Cadernos de Poesia" definia os seus objectivos da seguinte forma: "Destinam-se estes cadernos a arquivar a actividade da poesia actual sem dependência de escolas ou grupos literários, estéticas ou doutrinas, fórmulas ou programas".
Mais de meio século depois, a editora Campo das Letras recuperou estes "Cadernos de Poesia" numa reprodução fac-similada dirigida por Luís Adriano Carlos e Joana Matos Frias.
Esta edição (à venda por 14,46 euros) reproduz os exemplares pertencentes ao poeta Albano Martins, e integra três índices - um de autores, um de títulos e um geral - que visam facilitar a pesquisa por poetas e por poemas.
Integrada na colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa Séc.XX, esta publicação conta com o apoio do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas (Ministério da Cultura).
Nos três fascículos publicados em 1940 (de um total de 15 nas três séries) estão presentes poetas tão diversos como os pós-simbolistas e modernistas Luiz de Montalvor, João Cabral do Nascimento, João Osório de Castro, Armando Côrtes-Rodrigues e Fernando Pessoa, os presencistas Carlos Queiroz, Casais Monteiro, Campos de Figueiredo, António de Sousa, Alberto de Serpa, José Régio, Saúl Dias e António de Navarro, os neo-realistas João José Cochofel, Fernando Namora e Álvaro Feijó, além de Tomaz Kim, José Blanc de Portugal, Sophia de Mello Breyner Andresen, Ruy Cinatti e Jorge de Sena.
O facto de "Cadernos de Poesia" ter tido "fortes influências nos poetas da época" e "sobretudo nas gerações futuras" - além do inquestionável "interesse documental para o público do nosso tempo" -, justifica a aposta da Campo das Letras na reedição desta publicação (424 páginas).

Ubi Veritas

ALGUMA INSPIRAÇÃO
Vem meu amor
A tempestade voou para longe
Minha alma expande-se liricamente
por caminhos de algas
Entremos juntos na neblina
libertos de alma enferma

Vem meu amor
O sonho não é mais sentença de morte
Trombetas anunciam a liberdade
A ânsia corre em minha respiração
Quero beber o licor das estrelas
Voar em lençóis de espuma

Vem meu amor
Não temas o horizonte
nem espinhos de incerteza
Juntos vamos beijar o sol
Derreter imagens de prazer
Despir preconceitos cor de veneno

Vem meu amor
Quero mergulhar no teu corpo
Sentir o mel das tuas veias
Brindar ao fogo que nos mata
Gritar aos Deuses
que amamos sem freio

Vem meu amor
Vamos à procura de soluções poéticas



Salomé Castro in Ubi Veritas

Sugestões para menores de 18!

ANÁLISE LITERÁRIA - Sugestões de leitura
ANNIE DALTON
DIFEL
Anjos em SarilhosAté há bem pouco tempo, Mel era uma adolescente como tantas outras. Agora é um anjo e... viaja no tempo. Nesta segunda aventura, a Agência envia Mel e os seus amigos, Lola e Reuben, para a Londres do século XVI. Nesta missão eles terão de proteger Cat, Nick e Chance, um trio de adolescentes problemáticos. Ao início, Mel e os amigos não percebem por que razão esses jovens são tão importantes para a Agência. Depois, subitamente, tudo se complica e os anjos ficam em sarilhos. Não há tempo para mais dúvidas, têm de agir e rápido... Da colecção Academia de Anjos, este livro (201 páginas) está à venda por 8 euros.

DAV PILKEY
GRADIVA JÚNIOR

Quico Ricotta e o Robô Gigante...

Quico Ricotta é um rato pequenino, mas tem um amigo muito grande: um Robô Gigante voador! E, quando um patife extraterrestre chamado General Melga invade a Terra com um exército de melgas mutantes, o Quico e o Robô sabem exactamente o que devem fazer para resolver o problema! Eis uma nova aventura do Quico e do seu Robô de estimação. O livro tem 128 páginas e inclui cenas em FLIP-O-RAMA e instruções que ensinam a desenhar as personagens. O texto é de Dav Pilkey e as ilustrações são de Martin Ontiveros. Custa 9 euros.

CATHY HOPKINS
EDITORIAL PRESENÇA

Amigas, Namorados e Rivais
Mais um título da colecção "Clube das Amigas". A jovem Nesta parece ter encontrado o rapaz dos seus sonhos: Simon – simpático, carinhoso e lindo! O único problema é que ele é também tremendamente rico e Nesta sente que não consegue estar ao seu nível para poder fazer parte da sua vida. Felizmente, pode sempre contar com o apoio das suas amigas, Lucy e Izzie, que a vão ajudar a perceber o que é verdadeiramente importante na vida… Custa 6,73 euros.

Ubi Veritas

ALGUMA INSPIRAÇÃO
Nosso amor grita entre lençóis de fogo

Saboreio teu corpo despido do mundo

Sinto o arfar inebriante do teu peito

enquanto tocas minhas coxas desnudas,

arranhas minha pele, acaricias meu ventre

Beijo teus lábios vermelho sangue

que ofegante respiração libertam

A adrenalina corre, em mim, sem freio

Beija-me, toca-me, ama-me

Mais, mais, mais

Quero explodir com tua chama

Ouvir teus gritos, sentir-te vibrar

Sentir a espuma da vida dentro de mim

Desmaiar contigo



Salomé Castro in Ubi Veritas

Uma pedra no caminho...

PALAVRAS COM ALMA
Importantes são todos aqueles (e serão, certamente, alguns) que nos estendem a mão se, um dia, tropeçarmos numa pedra. Mas, mais importantes são todos aqueles (e serão, certamente, poucos) que tiram a pedra antes de passarmos e que dificilmente saberemos quem são.


Um berço para acolher crianças em risco

SUGESTÃO AVENTURADA

A Ajuda de Berço, fundada em 1998, acolhe crianças dos 0 aos 3 anos, necessitadas de protecção urgente, face a situações que as coloquem em risco, tais como maus tratos, abusos sexuais, pais alcoólicos ou toxicodependentes, prostituição, falta de lar ou abandono.
Esta instituição nasceu na sequência das necessidades sentidas por um grupo de profissionais - médicos pediatras, sociólogos, enfermeiros, psicólogos, técnicos de serviço social e juristas - para dar resposta aos problemas das crianças em risco, situação de abandono e vítimas de exclusão social.
O acolhimento das crianças é feito depois de analisado cada caso pela Direcção e Equipa Técnica e dado parecer positivo.
Para além do acolhimento das crianças, os técnicos da Ajuda de Berço intervêm na dinâmica familiar de cada criança, de forma a ajudar as famílias, quando possível, a encontrar soluções para receber a criança. Assim, é dado apoio aos pais para encontrarem alternativas, nomeadamente encaminhando-as para os diversos departamentos ou serviços disponíveis na comunidade.

Desafio...

PALAVRAS COM ALMA
O verdadeiro desafio do homem
é reconhecer que depende somente de si próprio.

Autor desconhecido

Que belo é amar

PALAVRAS COM ALMA
Que belo é amar
quando se ama a dois,
triste é acabar
e sofrer o que vem depois.

Mesmo sem alarde
ele toca toda a gente,
é esse fogo que arde
e essa dor que não se sente.

Fecunda a loucura
no horizonte de um beijo,
toda a gente o procura
como único desejo.

É a fonte da vida,
da morte e do além.
Em sua guarida
somos sempre alguém.

Encontramo-lo no cemitério
onde o ódio jaz.
É sempre um belo mistério
que nos ama e dá paz.

Renasce no dia a dia
e é incólume ao mal.
Por renascer em cada poesia
é eterno, é imortal.

Orlando Castro in
www.altohama.blogspot.com

Aprendizagens de carácter social, emocional e cívico

ANÁLISE LITERÁRIA – Infantil/Didáctico


A colecção Crescer a Aprender, com chancela da Porto Editora, tem como objectivo a promoção de aprendizagens de carácter social, emocional e cívico. Especialmente concebida para crianças entre os quatro e os oito anos, esta colecção tem direcção de Luís de Miranda Correia e conta com textos de autores cuja formação assegura registos adequados.
"Compreender e cuidar", escrito por Cheri J. Meiners e ilustrado por Meredith Johnson, ensina as crianças a compreenderem e a respeitarem os outros. A autora utiliza a empatia como chave-mestra para ajudar os pequenos leitores a construir interacções saudáveis. Além disso, promove a compreensão de sentimentos diferentes, orientando para a importância de aceitar os outros.
Cheri J. Meiners tem um mestrado em educação básica e educação para sobredotados.
Foi professora dos 1º e 2º ciclos do Ensino Básico, dá formação a educadores na Utah State University e é supervisora em cursos para professores.
"As mãos não são para bater", com texto de Martine Agassi e ilustrações de Marieka Heinlen, aborda a questão da violência. A autora, terapeuta clínica com experiência como consultora comportamental e conselheira de crianças e famílias, dirige-se aos leitores numa linguagem extremamente simples e directa. Aborda o carácter negativo da violência e fornece indicadores para o controlo de emoções presas a sentimentos de raiva e angústia.
Ambos os livros (à venda por 9,50 euros, cada) incluem uma secção para adultos, com sugestões de actividades que visam reforçar as competências desenvolvidas.
A colecção Crescer a Aprender inclui outros títulos: "Escutar e aprender" (como ensinar as crianças a ouvirem atentamente), "Partilhar e dar a vez" (como ensinar as crianças a perceberem o que significa partilhar), "Quando tenho medo" (como ensinar as crianças a combaterem os seus medos).

... a vida é uma utopia

PALAVRAS COM ALMA

O bonito na vida é pensar que a vida é uma utopia
e que se deve sempre caminhar para esse horizonte,
muito embora se saiba que nunca se vai alcançá-lo.

Autor desconhecido

Uma lenda de amor que desmaia nas margens do Rio Ave

ANÁLISE LITERÁRIA - Infantil


"A Lenda do Rio Ave", de Maria José Meireles, é uma história de amor esculpida em cenário bucólico. A natureza está em sintonia com o amor entre uma bela cabreira e um cavaleiro, e não ousa ficar indiferente à dor de uma separação que se quer breve mas que se faz longa. E porque - diz-se - "o amor move montanhas" (neste caso, serras), a formosa cabreira pôde fazer chegar as suas lágrimas ao seu amado. É a imaginação de Maria José Meireles ao serviço de uma lenda de amor que desmaia nas margens de um rio: o Rio Ave.
As ilustrações são de João Caetano - formado em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, e que, em 2001, recebeu o Prémio Nacional de Ilustração com o livro "A Maior Flor do Mundo", de José Saramago.
Maria José Meireles, licenciada em História, é professora. É co-fundadora da Cooperativa de Ensino Árvore, em Guimarães.
"A Lenda do Rio Ave" integra a colecção “O Sol e a Lua”, editada pela Campo das Letras. Custa 9,95 euros.

Memória

PALAVRAS COM ALMA
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Visita guiada ao mágico país dos faraós

ANÁLISE LITERÁRIA - Infantil
“À Descoberta do Egipto Antigo”, de Shaheen Bilgrami, é um livro que cativa ao primeiro olhar e que encanta ao primeiro toque.
Abdul guia um grupo de jovens turistas (e os leitores) numa viagem aos locais do entusiasmante Egipto antigo. Visitam as pirâmides – construídas como túmulos monumentais para os faraós egípcios, ou reis – e descobrem a sua história: a grande esfinge de Gizé tem 21 metros de altura e 73 metros de comprimento; mais de dois milhões de blocos de pedra foram usados para construir a Grande Pirâmide, sendo que cada um pesava cerca de 2,75 toneladas; entre muitas outras curiosidades. Dão um passeio pelo Nilo; ficam a saber que este rio tem mais de 7.000 quilómetros de comprimento e vêem uma réplica de um dhow ou barco à vela. Conhecem ainda o famoso templo de Abu Simbel e observam uma placa de pedra coberta de hieróglifos. No último dia de viagem vão ver múmias verdadeiras e descobrir como eram feitas.
A particularidade deste livro são as tiras especiais que, quando puxadas, dão nova vida às imagens.
Esta aventura no país dos faraós tem chancela da Editorial Estampa (colecção O Livro Mágico) e custa 13,99 euros.

Como posso ser feliz?

PALAVRAS COM ALMA
"Cada uma de nossas acções conscientes e, de certa forma, toda a nossa vida podem ser vistas como resposta à grande pergunta que desafia a todos: Como posso ser feliz?"

Sua Santidade, o Dalai Lama (Tenzin Gyatso)

De gémeos a génios num esfregar de lâmpada

ANÁLISE LITERÁRIA – Ficção Juvenil

Philippa e John são dois irmãos de Nova Iorque que, na altura em que nascem os dentes do siso (doze anos) descobrem, estupefactos, que, para além de gémeos, são também... génios. Génios daqueles de lâmpada, ou seja, têm o poder de satisfazer desejos a terceiros. A descoberta, contudo, não se revela muito pacífica e eles vão passar por um processo de aprendizagem que lhes muda por completo a vida.
Esta é a história base do primeiro volume da trilogia “Filhos da Lâmpada”, intitulado “A Aventura de Akhenaton”, brilhantemente imaginada e melhor escrita por P.B.Kerr, conhecido por Philip Kerr, autor de policiais como “O Tiro” ou “O Segundo Anjo”.
Os gémeos génios são, na realidade, descendentes de djins e vão de Nova Iorque para Londres passar uns tempos com o excêntrico Tio Nimrod para aprenderem a lidar com os novos poderes. Mas, o que seria uma mera fase de aprendizagem transforma-se, afinal, numa grande aventura, recheada de perigos, sustos, revelações e até assombrações.
Antes de descobrirem os seus poderes extraordinários, John e Philippa vivem alguns momentos bizarros, nomeadamente sonhos comuns ou coincidências incríveis. Sentem que algo se está a passar, mas não compreendem o fenómeno.
Em Londres, enquanto aprendem com o tio a desenvolver e compreender os poderes djim, constatam que vão ter de viajar para o Egipto, onde a caótica, mas fascinante, cidade do Cairo os aguarda. De repente, vêem-se envolvidos numa grande batalha entre tribos djins.
Tendo em conta que este é o primeiro livro de um trilogia, as 200 páginas iniciais são reservadas para a apresentação das personagens e do tipo de poderes em causa, ou seja, o modo de vida djim.
A aventura propriamente dita arranca então, colocando os gémeos e o tio numa grande batalha entre o Bem e o Mal, ou seja, entre as tribos boas e más de djins. Apesar das pessoas, no Mundo, não darem pela existência dos djins, é graças ao equilíbrio de forças que há entre estes que o nosso planeta vive em relativa harmonia.
Só que a descoberta da chave que vai abrir a porta ao ressurgimento de mais 70 djins no mundo faz com que se inicie uma nova luta pelo poder - quem os libertar ficará senhor deles e o destino do mundo está dependente do lado para que se voltarem.
Por isso Nimrod se envolve numa luta titânica com Iblis, o djin mais perverso do mundo, de modo a que este não se apodere dos djins em tempos aprisionados pelo faraó Akhenaton.
A luta, envolvendo poderes mágicos e terrenos, vai começar no Egipto, passando pelo Museu do Cairo e escavações arqueológicas, regressando a Londres, ao Museu Britânico, antes de se concluir no Pólo Norte.
Escrita de um modo simples, sem nunca perder a emoção, “A Aventura de Akhenaton” deve ser vivida com intensidade.
“A Aventura de Akhenaton”, editado pela Difel, tem 407 páginas e está à venda por 16 euros. Integra o Plano Nacional de Leitura (Ler+) como livro recomendado para o 6º ano de escolaridade, destinado a leitura autónoma e/ou a leitura com apoio do professor ou dos pais.

Doze fábulas, livres, francas e intemporais

ANÁLISE LITERÁRIA - Contos


O mundo de Horacio Quiroga, mestre na narrativa curta, perdura nestes "Contos da selva". Um livro convidativo, reflexivo, comunicativo, que o autor escreveu para o seu filho no início do século XX.
Doze fábulas, outras tantas lições - francas e intemporais. A linguagem simples de Quiroga corre sem freio, apenas domada pela desejável eficácia de comunicação. O autor vai muito além da mera lição de moral; aposta na aprendizagem de uma supra-amizade. A amizade enquanto recompensa é o fio que percorre todos os contos.
A imaginação salpica todo o discurso de Quiroga. Incisivo e até crítico, o autor acaba por deixar que os seus anseios pessoais transpareçam na ficção dos seus relatos. Também uma certa tristeza se percebe nos seus contos (talvez fruto da tríade amor/loucura/morte que caracterizou a sua vida).
Estes "Contos da Selva" não deixam, contudo, de ser uma excelente opção de leitura para os mais jovens.
Dois mundos distintos: a cidade e a selva; dois seres distintos: o homem e o animal. No mundo de Quiroga o Homem e a Natureza relacionam-se, todos falam a mesma língua, todos lutam pela sobrevivência e todos alcançam noções mais justas.
A sua obra, de qualidade literária incontestável, tem sido comparada à de Poe, Kipling, Maupassant e Tchekov. Quiroga prima pela capacidade criativa e técnica de condensar, num espaço narrativo relativamente curto, profundos temas existenciais.
Editado pela Cavalo de Ferro, este livro está à venda por 13 euros.

Ubi Veritas

ALGUMA INSPIRAÇÃO
É mentira.
São cristais banhados de chuva
roubados a Deuses felizes
Não chores.
Vão coroar-te com trança de rosas
colhidas em jardins de brincar
Acredita.
Quando acordares, verás o sol
enfeitado por gaivotas planando
Viverás.
O futuro espera por ti
Aqui ou no infinito...


Salomé Castro in Ubi Veritas

A realidade sob o grilhão da fantasia!

LITERATURA - Lançamento

"Avatar - Destino do Universo", o primeiro livro do jovem Frederico Duarte, tem lançamento agendado para o próximo dia 21 de Outubro (domingo) na Fnac Colombo (Lisboa).
Eis a sinopse desta nova obra de ficção juvenil: "No lugar onde vida e morte se fundem; onde a Terra deixou raízes e granjeou sementes; onde a magia dita a realidade; onde a matéria se prolonga no plano espiritual; onde o equilíbrio nasce da instabilidade dos quatro elementos da Natureza; onde criaturas fabulosas, espécies híbridas e seres humanos se digladiam pelo domínio supremo; onde um Avatar fará a diferença… O universo conhecerá o seu fatal destino."
"Avatar - Destino do Universo" tem 470 páginas e integra a colecção Quasar da editora Metaphora (uma chancela das
Edições Nova Gaia).
O autor, Frederico Duarte, tem 24 anos. É estudante de Engenharia Informática, no ISEL (Instituto Superior de Engenharia de Lisboa. Nasceu em Lisboa, onde vive. Os seus passatempos passam por jogos de computador, séries de TV, leitura e, obviamente, pela escrita… sempre com a fantasia e a ficção científica à espreita. Na leitura, os seus escritores favoritos são Robin Cook e Christian Jacq, também com um carinho especial por Jules Verne, Juliet Marillier e J. R. R. Tolkien.

O Mundo Faz de Conta

SUGESTÃO AVENTURADA

“Uma livraria especializada em livros infantis” – é desta forma que a livraria “O Mundo Faz de Conta” se dá a conhecer.
“A ideia de criar uma livraria especializada em livros infantis surgiu do nosso gosto pela leitura e pelas crianças, e da necessidade de criar um espaço onde elas possam explorar e divertir-se, incentivando assim a leitura e criatividade”, explica a gerência.
Além de um vasto leque de títulos, disponibiliza brinquedos didácticos e artigos áudio e multimédia.
A loja, sita na Rua João Carlos Júnior, 4 Loja 1 (Torres Vedras), inclui um espaço de lazer onde as crianças podem ler e contactar com alguns livros, fazer jogos lúdicos e outras actividades, nomeadamente ouvir histórias e participar na representação de fantoches e em ateliers didácticos.

"É circo, é alegria, é sonho, é magia!"

ANÁLISE LITERÁRIA - Infantil


O escritor António Mota e a ilustradora Danuta Wojciechowska, unem talentos no livro "Uma Tarde no Circo", com chancela da Gailivro.
A obra, que integra a colecção Biblioteca Pedro e Mariana, dá a conhecer o ambiente que envolve as artes circenses. Pedro e Mariana, junto com o avô, vivenciam o fascínio pelo universo do circo. “O circo é o espectáculo mais bonito que há no Mundo! É claro que não vamos perder esta oportunidade” - diz o avô. Entusiasmados, os dois manos admiram os mestres das artes circentes: palhaços, ilusionistas, trapezistas, leões, cães amestrados... empenhados nas suas curiosas e divertidas actividades.
"É circo, é alegria, é sonho, é magia!" - é a frase que encerra o livro e que dita a essência de uma tarde passada numa tenda de circo - um motor de entretenimento que continua a fazer as delícias de tantas crianças.
A expressividade e a dinâmica - do discurso e das imagens - é o ponto forte do livro. Ainda lugar para uma proposta algo interactiva: no final do livro os leitores podem aprender as etapas para fazer malabarismo com três bolas.
O livro está à venda por 13,80 euros. Integra o Plano Nacional de Leitura (Ler+) enquanto livro recomendado para o jardim de infância, destinado a ler em voz alta/contar/trabalhar na sala de aula.

Ubi Veritas

ALGUMA INSPIRAÇÃO
Quero ser grande
Sentar-me na glória
Firmar-me na história
Mover vontades
Ser grata certeza

Quero ser grande
Erguer troféus
Angariar aplausos
Vencer descréditos
Negar deméritos

Quero ser grande
Alimentar suspiros
Despertar sorrisos
Perpetuar lembranças
Inspirar intentos

Quero ser grande
Imprimir ecos
Pular montanhas
Semear horizontes
Merecer olhares

Quero ser grande
Vingar as lágrimas
Enaltecer a luta
Provar a força
Ancorar no sonho

Quero ser grande
Porque te amo

Salomé Castro in Ubi Veritas

Livros ricos e adaptados ao desenvolvimento emocional das crianças e jovens

ANÁLISE LITERÁRIA – Opinião


As capacidades de leitura e de escrita, começam a ser construídas muito antes de a criança entrar para a escola. O estímulo resulta de todo o universo de letras que a rodeia.
Quando uma criança tem a oportunidade de observar o uso que fazem da escrita e da leitura em seu redor, ela acaba por perceber a eficácia social desta actividade - condição indispensável para a construção da sua própria escrita/leitura.
Para crianças em idade escolar é de suma importância o papel das bibliotecas escolares, bem como a intervenção da família na criação de hábitos de leitura. O meio que rodeia a criança está carregado de significação, logo, o que nele se passa desperta curiosidade e é estimulante.
Portugal é um país que carrega a atribuição de baixos índices de leitura. Um perfil negativo que só poderá ser invertido partindo das novas gerações. Pais, professores e sociedade em geral, parecem estar conscientes dessa condição.
Ainda que a imprensa não lhe dedique especial atenção, a literatura infanto-juvenil começa a deixar de ser encarada como uma arte menor. Sinal da adesão dos portugueses a obras concebidas para essas faixas etárias é o facto de as editoras apostarem, a bom ritmo, na publicação de livros para crianças e jovens. Mais títulos (o que não implica necessariamente mais livros vendidos; apenas tiragens menores e uma maior rotatividade de títulos nos escaparates) e conteúdos cada vez mais ricos, é uma prática em crescendo. Além disso, a vitalidade desta área editorial constata-se, também, pela aposta em ilustradores qualificados.
A consciência de que os livros infantis (da autoria de novos autores, mas também com assinatura de grandes mestres da literatura) são o primeiro passo para aprimorar a cultura – com frutos a colher a médio/longo prazo –, tem vindo a estabelecer um crivo qualitativo cada vez mais apertado. Os exemplares colocados à venda vão deixando de apresentar conteúdos pobres e até estupidificantes. O resultado – comprovável num contacto atento com alguns dos muitos títulos que afloram nas livrarias – apresenta-se, regra geral, sob a forma de textos ricos, dinâmicos e adaptados ao desenvolvimento emocional das crianças e dos jovens.

Ubi Veritas

ALGUMA INSPIRAÇÃO
Viajo entre o sono e a vigília
e vejo pomposos pavões
de indisfarçada altivez

Suponho uma literatura rural
e busco a doce fragrância
da ténue bruma

Descubro lagos vestidos de nenúfares
e placidamente me prostro
em busca de revelador reflexo

Escuto o aspergir suave das fontes
e fecho os olhos para sentir
o seu choro baixo e pungente

Percebo o deleite do luar sulcando a noite
e inclino-me reverentemente
perante tão expostos amantes

Adormeço

Salomé Castro in Ubi Veritas

Apelo à curiosidade com soluções ousadas para problemas originais

ANÁLISE LITERÁRIA - Infantil


"Sua Senhoria, a Fada" é o segundo título da série "Crónicas de Sua Majestade, o Príncipe", da dupla Bruno Santos e Júlio Vanzeler.
Com a ajuda do Príncipe, a Fada vai tentar descobrir a causa e a solução para dois mistérios que a todos preocupam: os súbitos desaparecimentos e aparecimentos surpresa da tímida Princesa e a origem de uma súbita crise de espirros da Rainha Avó.
Uma história que vai beber aos tempos idos do “era uma vez...”, dando protagonismo a um príncipe, uma princesa e uma rainha no “palco” de um castelo; adicionando-lhe um toque de conto de fadas (com a presença da espampanante, roliça, vaidosa e nada "tradicional" Sua Senhoria, a Fada); e, ainda, oferecendo-lhe pormenores ancorados num futuro quase de ficção científica.
Este é o claro exemplo de uma obra que respira a dois tempos, o do texto e o das ilustrações - servidos e fruídos em partes iguais. Ambos provocam a curiosidade do leitor dando forma a um enredo que propõe soluções ousadas para problemas originais.
Vencedor do prémio de Literatura Ferreira de Castro, Bruno Santos escreve para crianças e adultos, e tem um significativo percurso no campo das artes plásticas, como artista e professor.
Júlio Vanzeler fez o curso de Design e Ilustração do CITEM, onde depois deu aulas de ilustração e desenho de figura. Colabora regularmente com o Teatro e Marionetas do Porto como ilustrador e designer de marionetas.
Editado pela Dom Quixote
, "Sua Senhoria, a Fada" (12,50 euros) sucede "Sua Majestade, o Príncipe".

Quero

PALAVRAS COM ALMA
Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.
Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anteriore no seguinte,
como sabê-lo?
Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.
Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.
Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa colecção de objectos de não-amor.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Hatherly na primeira e na terceira pessoa

ANÁLISE LITERÁRIA - Ensaio (Poesia)

É referenciada, a nível poético, como um dos nomes mais importantes das vanguardas portuguesas da segunda metade do século XX. A sua poesia reúne fortes tendências barroquizantes e visuais que a têm já levado a uma diluição de fronteiras entre expressão poética e intervenção plástica. Falamos de Ana Hatherly.
"Interfaces do Olhar" é uma colectânea de ensaios de vários autores (Ana Gabriela Macedo, Ana Marques Gastão, Casimiro de Brito, Elfriede Engelmayer, Fernando J. B. Martinho, Maria João Fernandes, Pedro Sena-Lino, Rogério Barbosa da Silva e Ruth Rosengarten) sobre a obra de Ana Hatherly. Os ensaios fazem parte da colecção Faces de Vénus, coordenada por Annabela Rita (doutorada em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea).
"Interfaces do Olhar" inclui ainda algumas entrevistas e uma antologia poética de Hatherly: meditações sobre a escrita, sobre a natureza, sobre a natureza humana... em poemas por palavras e em poemas por imagens (na sua sábia e inspiradora escrita de poemas visuais). A finalizar a obra, lugar ainda para uma detalhada bibliografia.
No seu conjunto, o livro constitui uma panorâmica da sua multifacetada obra, que se inscreve na linha de modernidade que dominou as artes e as letras do século XX - em que Ana Hatherly desempenha um papel fundamental.
Com chancela da Roma Editora
, "Interfaces do Olhar" custa 20 euros.

A ajuda da pequena Matilde entre brincadeiras e coisas sérias

ANÁLISE LITERÁRIA - Infantil
reúne uma dezena de títulos, alguns dos quais integram o Plano Nacional de Leitura.
A Colecção Matilde destina-se a crianças em idade pré-escolar. As histórias retratam, de forma simples, contextos que caracterizam o quotidiano real das crianças. Da autoria de Mary Katherine Martins e Silva (texto e ilustrações), os livros desta colecção (5,88 euros/cada) são acompanhados por um guia para pais, que deixa algumas sugestões para ajudar a criança em situações várias. O formato dos livros não resulta muito cativante para os mais pequenos, porém, as ilustrações conseguem atenuar esse ponto fraco.
"Matilde - Brinca com as Letras!!!" tem por missão despertar para o prazer da leitura: "A Matilde olha para a sua sopa com muita atenção. Lá dentro estão muitas massinhas boas com forma de letras..."
"Matilde - Vai para a Escola!!!" ajuda a criança na entrada para a escola: "A Matilde já tem seis anos. Este é o último ano que está no Jardim de Infância. A Sara, que é a educadora da Matilde, explica aos meninos que já não falta muito para irem para outra escola".
Esta colecção, editada pela Campo das Letras

Bebido o luar

PALAVRAS COM ALMA
Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Ficção com uma janela aberta para a realidade

ANÁLISE LITERÁRIA – Romance Juvenil


Os livros de António Mota destinados ao público juvenil carregam um profundo conhecimento de comportamentos, independentemente das idades ou dos contextos temporais. Os seus textos (que evidenciam trabalho de pesquisa) fluem num compasso ritmado, atraente e profícuo.
Entretenimento e aprendizagem surgem a par, enquanto resultado de uma escrita nada rebuscada mas escorreita e consistente, capaz de captar a atenção e assegurar o interesse do leitor.
"Pardinhas" é um dos vários títulos da colecção "Livros de António Mota". A viagem até Pardinhas, terra onde havia nascido o avô desta história, serve para desenrolar lembranças carregadas de emoção. Os netos, que dele tinham uma imagem não muito simpática, tornam-se ouvintes atentos das muitas vivências de tempos de outrora.
Os pormenores que o autor coloca na voz do avô estão ancorados na realidade – situações inscritas no passado, mas descritas com uma precisão que parece colocar o leitor nas cenas relatadas.
“Pardinhas” integra o Plano Nacional de Leitura (PNL)
– livro recomendado no programa de português do 8º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada na sala de aula.
"Fora de Serviço" é outro título da colecção "Livros de António Mota". Conta a história de uma mulher cansada de ser trabalhadora, esposa, mãe e dona de casa, sem colaboração doméstica dos filhos e do marido. Confrontados com a decisão daquela mulher de investir mais em si e no seu sonho profissional, filhos e pai acabam por perceber o que custa cuidar de um lar e, desta forma, firmam um compromisso que assenta na divisão de tarefas. Também aqui há a clara intenção de despertar uma consciência de contornos reais mas muitas vezes alheios ao entendimento - quer por ignorância de factos, quer por falta de empenho pessoal.
Este livro integra também o PNL - livro recomendado para o 5º ano de escolaridade, destinado a leitura autónoma e/ou a leitura com apoio do professor ou dos pais.
Os títulos aqui em destaque têm chancela da Gailivro
e estão à venda por 9,90 euros/cada.
O AUTORAntónio Mota nasceu em Vilarelho (Baião) em 1957. É professor do Ensino Básico desde 1975. Em 1979 publicou o primeiro livro: "A Aldeia das Flores". Em 1983, com a obra "O Rapaz de Louredo", ganhou um prémio da Associação Portuguesa de Escritores. Em 1990, com o romance "Pedro Alecrim" recebeu o Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças. Em 1996, com a obra "A Casa das Bengalas", ganhou o Prémio António Botto. Em 2004 recebeu, pela segunda vez, o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens, na modalidade livro ilustrado, com "Se eu fosse muito magrinho".
Os seus livros estão antologiados em volumes de ensino do Português e tem obras traduzidas em Espanha e Alemanha. Tem trinta obras recomendadas pelo Plano Nacional de Leitura.

Pequenas grandes sugestões...

ANÁLISE LITERÁRIA - Infantil

“O Papá e Eu”
12,50 euros
Texto Editores
"O Papá e Eu", da autoria de Sue Kassier, é um livro com sabor a mel: carrega uma doçura natural. A história deste exemplar centra-se na relação pai/filha. O texto é curto e simples. O amor e a cumplicidade ditam uma alegre e ternurenta partilha do tempo livre. As coloridas ilustrações, de Jerry Smath, providenciam a graça e a dinâmica. Trata-se, sobretudo, de um "álbum" – onde as imagens são o conteúdo dominante.


“Uma Noiva Bela, Belíssima”

14,20 euros
Livros Horizonte


Filomena é a personagem deste breve romance. Costureira de profissão e especialista na criação de vestidos de noiva, a jovem concretiza o seu grande sonho: fazer o seu próprio vestido. Entusiasmada, põe mãos à obra. Porém, no dia do seu casamento com Ferruccio nem tudo corre bem... Neste livro da italiana Beatrice Masini destaque para a fabulosa ilustração assinada por Anna Laura Cantone. Criativa, inovadora e muito divertida, toda a imagem do livro merece uma ressalva especial.


“João Brincalhão”

7,98 euros
Edições Nova Gaia


“João Brincalhão” é um livro com poemas e ilustrações de M. Carolina Pereira Rosa. “De manhã salto da cama/ Começo logo a brincar/ Com os carros, com o gato/ E com tudo o que apanhar” – assim está dado o arranque. Poemas singelos que abordam temas diversos com que as crianças estão familiarizadas. A galinha pimpolina, o cavalinho, a borboleta amarela e o soldadinho de papel são alguns dos personagens. É um livro fresco e leve que marca diferença sobretudo pelas ilustrações – capazes de captar a atenção dos mais pequenos, mas também dos graúdos pelo seu apelo às memórias dos tempos da escola primária.

Saudades

PALAVRAS COM ALMA
Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,

Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:

Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

Florbela Espanca
(1894-1930)

“Crescer Cidadão” de forma divertida

ANÁLISE LITERÁRIA - Infantil/Didáctico

“Crescer Cidadão” é crescer consciente dos direitos e deveres que assistem a cada um; é respeitar as diferenças; é aprender a afirmar-se, com informação, correcção e responsabilidade, em contexto de sociedade. A cidadania e todas as noções que lhe estão inerentes, são fundamentais no processo de educação. A colecção “Crescer Cidadão” – que acaba de ser lançada pelas Edições Nova Gaia – vai ao encontro dessas noções. Cada livro tem uma tripla valência: uma história divertida e potenciadora de comportamentos saudáveis; um leque de actividades que visam, pela vertente mais prática, desenvolver uma cidadania activa; e, ainda, um “Guia para educadores”.
Da autoria de Jennifer Moore-Mallinos, “Tu consegues!” e “Posso esperar para crescer!” são os dois primeiros títulos da colecção. Estão à venda por 9,50 euros. Seguir-se-ão os títulos “Tenho dislexia!” e “Jogo limpo!”. As ilustrações – coloridas e dinâmicas – têm assinatura de Marta Fàbrega.
Em “Tu consegues!”, através dos olhos de um menino, exploram-se algumas das situações reais vivenciadas por quem anda de cadeira de rodas. A história põe à prova, sem quaisquer resquícios de vitimização, o desejo de uma criança que apenas quer ser um entre iguais: poder estudar, brincar, passear, jogar…
“Posso esperar para crescer!” fala do desejo, comummente experienciado pelas crianças, de crescer para se livrarem do cumprimento de regras e para não sofrerem as consequências desencadeadas pela desobediência. Acompanhando a história protagonizada pela pequena Tatiana, os leitores vão perceber que há tempo para crescer, aliás “às vezes é difícil ser criança, mas é divertido fazer tolices de vez em quanto” – pode ler-se no livro.
Não se trata de livros encharcados em moralidade, mas sim de livros que através de uma, bem conseguida, aproximação ao universo infantil, retratam os direitos e as obrigações enquanto noções integradoras e essenciais.