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Doze fábulas, livres, francas e intemporais

ANÁLISE LITERÁRIA - Contos


O mundo de Horacio Quiroga, mestre na narrativa curta, perdura nestes "Contos da selva". Um livro convidativo, reflexivo, comunicativo, que o autor escreveu para o seu filho no início do século XX.
Doze fábulas, outras tantas lições - francas e intemporais. A linguagem simples de Quiroga corre sem freio, apenas domada pela desejável eficácia de comunicação. O autor vai muito além da mera lição de moral; aposta na aprendizagem de uma supra-amizade. A amizade enquanto recompensa é o fio que percorre todos os contos.
A imaginação salpica todo o discurso de Quiroga. Incisivo e até crítico, o autor acaba por deixar que os seus anseios pessoais transpareçam na ficção dos seus relatos. Também uma certa tristeza se percebe nos seus contos (talvez fruto da tríade amor/loucura/morte que caracterizou a sua vida).
Estes "Contos da Selva" não deixam, contudo, de ser uma excelente opção de leitura para os mais jovens.
Dois mundos distintos: a cidade e a selva; dois seres distintos: o homem e o animal. No mundo de Quiroga o Homem e a Natureza relacionam-se, todos falam a mesma língua, todos lutam pela sobrevivência e todos alcançam noções mais justas.
A sua obra, de qualidade literária incontestável, tem sido comparada à de Poe, Kipling, Maupassant e Tchekov. Quiroga prima pela capacidade criativa e técnica de condensar, num espaço narrativo relativamente curto, profundos temas existenciais.
Editado pela Cavalo de Ferro, este livro está à venda por 13 euros.

Os gritos silenciosos e poéticos das submissas mulheres afegãs

ANÁLISE LITERÁRIA - Poesia

"A Voz Secreta das Mulheres Afegãs - O Suicídio e o Canto” de Sayd Bahodine Majrouh, é um livro impregnado de sentimentos fortes. Com notas, introdução e tradução, de Ana Hatherly, esta obra dá a conhecer melodias desconhecidas.
A situação repressiva vivida pela mulher na sociedade afegã aparece quase subjugada por uma empreendedora vontade de libertação – oculta mas de teor destemido.
São poemas breves e ritmados tecidos por mulheres que, de certa forma, arriscam a vida ao falar abertamente de amor, de honra, de morte – temas som sabor a sangue.
“Este volume, que traduzi a partir da edição francesa de 1993, é um libelo contra a repressão, seja ela onde for, seja ela contra quem for. Foi em nome desse espírito que empreendi esta tradução”, sustenta Ana Hatherly.
Servidão, repreensão, injúria, inferioridade, subordinação, humilhação, submissão, desigualdade... são noções demasiados impregnadas no quotidiano das mulheres afegãs, acolhidas com tristeza e vergonha desde o berço.
“No seu íntimo, a mulher pashtun se indigna, contesta, alimenta a sua revolta. Deste protesto escondido, dia após dia endurecido, ela revela dois testemunhos: o suicídio e o canto” - palavras de Sayd Bahodine Majrouh.
As provocações contidas nos “landays” (poemas curtos, de dois versos livres de nove e treze sílabas, sem rimas obrigatórias mas com sólidas escansões internas) são uma escapatória e uma manifestação de revolta aos desígnios do “macho” (pai, marido, filho - que as vitimizam).
Sayd Bahodine Majrouh (1928-1988), poeta e profundo conhecedor das formas de arte e de poesia do seu país, o Afeganistão, recolheu estes cantos que representam uma linguagem secreta feminina, que serve para expressar discursos de ódio, amor, erotismo e escárnio. Uma linguagem proferida à revelia, com revolta face aos homens e a uma cultura masculina dominante.
“A Voz Secreta das Mulheres Afegãs - O Suicídio e o Canto”, conta ainda com um posfácio de André Velter: “O Explorador da meia-noite”.
Publicado pela Cavalo de Ferro
, está à venda por 12,20 euros.